Por que temos a mania de revirar armários, diários, cadernos, álbuns de fotografia, emails enviados, recebidos, guardados, bilhetes, papéis, poemas, livros com dedicatórias, caixas e mais caixas com todo o nosso passado?
Sabemos perfeitamente que estamos revirando sentimentos, lembranças, saudades, nostalgias. Cada pedacinho de você e do que viveu está ali, em um lugar ou outro.
Às vezes você sorri, às vezes chora, se desespera, dá gargalhada, recomeça, se reinventa, se refaz. E você sorri quando percebe como é sonhadora, romântica, apaixonada. Acreditou que o acaso e o destino estavam juntos dessa vez.
Até parece que você não sabe que certos amores ou quase amores simplesmente se esgotam, nem se quer precisam começar, e aí você pensa que só porque deu uma pausa neles, quando recomeçar a história vai ser outra, mas você sabe que é a mesma.
Repetida, incompleta, inconseqüente, maluca e intensa. Sabe que tem que ficar esperta, e não se deixar levar, porque podem passar sete, quatorze ou vinte anos, não importa, se ele te conquistou um dia, é melhor, se preparar, porque ele sabe o jeito certo do teu jeito, sabe como tocar teu rosto, teus cabelos, beijar tua boca, sentir tua pele, sabe te deixar maluca, de raiva , e de desejo, e ele vai fazer isso.
E você se encanta pelas mesmas coisas, pelo jeito fofo dele, pela maneira como ele ri, e fica viciada no beijo, no cheiro, na pele, no toque. E então pensa que o Peter Pan está pronto para deixar a Terra do Nunca, afinal, você adora o jeito de menino dele, isso te encanta.
Curte a inconsequência, as festas, mas também quer mais, quer a segurança, a maturidade, a postura, quer poder olhar para ele e admirada, perceber o quanto tem orgulho dele, como ele tem atitude, perante a vida, e isso sim, fascina, admiração não se esgota, não se perde e te estimula a ser melhor.
Mas ele é assim, um menino, sempre na Terra do Nunca, ele não oscila, ele é assim, e você se culpa quando ele te chama de criança, sabe que agiu como uma menina de 15 anos, mas também vê o que ele não percebe.
Você tenta entrar na Terra do Nunca, porque ele vai ter para sempre 18, e você até consegue entrar lá, mas sei lá porque, talvez seja culpa do relógio biológico, você tem que crescer, e aquela inconsequente e irresponsável não é você.
Você nem sequer gosta dela, você gosta de estar no controle da sua vida, de assumir suas escolhas, seus desejos, de vencer os medos e de saber o que quer. Então para de revirar as gavetas, joga fora os bilhetes, apaga os emails, e se livra de toda a sujeira do sótão, porque precisa ir embora.
Vocês dois sabem, que no “vão das coisas que a gente disse”, não cabe mais sermos nem sequer amigos... tudo se esgota...me reviro pelo avesso, e sei que dessa vez, não vou voltar a Terra do Nunca, não vou mais brincar de esconde-esconde comigo mesma e guardo para mim as melhores lembranças, as únicas que tiveram valor, e o resto, simplesmente não importa mais....
Anos depois você se muda, e tem mais caixas para limpar, mais bilhetes, cartas...a única coisa que você não rasga, não joga fora, são as fotos, porque quando a memória começar a falhar, o desejo intenso de revirar o passado, vai te fazer procurar as lembranças, e para isso você tem as fotos, para imortalizar e eternizar os momentos mais marcantes da sua vida.
Não importa o quanto você se reinvente e se revire pelo avesso...simplesmente não importa....você não pode apagar, não pode mudar, não pode deixar de sentir, mas pode escolher o que fazer com tudo isso, e hoje eu sei, "e se soubesse antes o que sei agora", eu teria feito quase tudo igual, só não teria me perdido, teria voltado antes...mas aí não importa mais....e hoje eu entendo o que senti na última vez em que deixei Passo de Torres....
Deixei um pedaço de mim lá, deixei a pureza, a inocência, e tudo que acreditei que fosse real, deixei uma vida, que julguei que fosse plena, completa, cercada de amigos, que considerava meus irmãos, naquele dia de agosto eu chorei, no colo que me era mais aconchegante e mais macio, chorei porque a Chele ia embora, e porque pensei que nada seria mais do mesmo jeito e a verdade estava ali o tempo todo, eu fiquei triste, e logo depois eu percebi o por que...e hoje só sobram as lembranças e as fotos...mas não importa....simplesmente não importa...porque no verso e no reverso eu me encontro....

Nenhum comentário:
Postar um comentário